Edição 180 - Opinião
 
Pré-Sal e o Futuro
   
  Antonio Delfim Netto
  Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA/USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento.
email: contatodelfimnetto@terra.com.br

São naturais as dúvidas que alguns leitores manifestam a respeito do aproveitamento das reservas petrolíferas do pré-sal, seja em relação à capacidade técnica brasileira de explorá-las adequadamente, seja em função dos enormes custos envolvidos. Uma outra questão é que os números são tão fantásticos que suscita um certo ceticismo quanto ao volume real dessas reservas.

Inicialmente, a dúvida quanto à capacidade da Petrobras de extrair o óleo ou o gás nas profundidades anunciadas e na distância que se encontram do litoral não têm muita razão de ser, por dois motivos principais:

1. Ela é reconhecidamente uma das duas ou três empresas de maior experiência e melhores resultados no mundo em empreitadas dessa natureza. Aliás, já estamos extraindo o produto dos campos do pré-sal;
2. Não estamos sozinhos, há interesse suficiente das maiores empresas do ramo em participar de negócios com o detentor provável da sexta reserva mundial, numa região preservada das habituais turbulências que cercam essa atividade e relativamente acessível em termos de mercados de consumo. Quanto aos volumes ditos “fantásticos”, temos razões para aceitar a estimativa de quantidades da ordem de 60 a 70 bilhões de barrís, o que significa cinco vezes a mais que as atuais reservas nacionais de 12 bilhões. Nosso consumo diário de 2 milhões de barris e anual aproximado de 700 milhões permite projetar uma garantia de abastecimento para os próximos 100 anos. É a mesma duração das reservas potenciais de dois dos maiores produtores mundiais, a Venezuela e o Iraque.

A circunstância de o Brasil não ter ainda definido o sistema de exploração dessa nova riqueza que a natureza nos ofereceu deve ser aceita como algo muito positivo. Não temos problemas de financiamento para as operações no curto prazo, pois o programa de investimentos até 2011 já tem os recursos garantidos. Então temos tempo para examinar cuidadosamente as opções que se oferecem antes de tomar a histórica decisão de como vamos nos organizar para explorar os campos do pré-sal em benefício do desenvolvimento do Brasil. Não vejo vantagem em nos transformarmos num grande exportador de petróleo bruto. Devemos ter a inteligência para montar as estruturas que nos permitam utilizá--lo na produção de bens mais nobres. E não precisamos também queimá-lo aumentando a sua participação como combustível no transporte, pois temos alternativas que permitem manter a nossa matriz energética limpa, ajustada às exigências mundiais de conservação ambiental. A exploração inteligente do pré-sal produzirá uma aceleração importante no crescimento brasileiro pelos próximos 25 anos, pelo menos. Ela permitirá a superação simultânea dos dois tradicionais obstáculos que obstruíram o crescimento brasileiro: uma crise na oferta de energia, como, por exemplo, a de 2001 e as crises de balanço de pagamentos que se repetiram em várias ocasiões nos últimos 30 anos.
O pré-sal é, realmente, a chave para uma radical mudança na História do Brasil.

 
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