Edição 179 - Matéria Especial
 
Suspensão Em Foco
A poucos sistemas do veículo se dá tanta atenção como ao de suspensão. Não é para menos.
Se ele não funciona bem, o passeio, além de desconfortável, torna se perigoso.
 

Texto: Cléa Martins

 

  Suspensão em foco
   
  Suspensão em foco
  Divulgação
   

Pesquisa apresentada pelo GMA – Grupo de Manutenção Automotiva –, que apontou os serviços mais efetuados nas oficinas mecânicas brasileiras em 2008, mostra que o sistema de suspensão é um dos queridinhos dos donos de carros no Brasil. Segundo levantamento, dos reparos realizados pelos mecânicos, a grande maioria, mais e 91%, foram referentes ao sistema de suspensão. Mas, apesar da fama e dos números, o sistema ainda está longe de ser tratado pelos donos de carros brasileiros com a atenção que realmente merece. Dos pitstops organizados por diversas empresas e instituições em todo o País vem a comprovação do descuido. Em geral, são poucos os veículos que passaram por alguma inspeção que têm itens como amortecedores, bandejas, braços, pivôs, molas ou feixes, buchas e coxins aprovados. Numa ação feita em Minas Gerais recentemente, em que mais de 300 veículos foram vistoriados, os técnicos descobriram que cerca de 30% apresentavam amortecedores danificados.

Índices do próprio GMA, que apoia uma campanha de inspeção gratuita que vem sendo realizada em São Paulo, mostram que mais de 90% dos veículos inspecionados até agora apresentaram algum problema. E o pior: 82% deles apresentavam problemas sérios. O reflexo do mau hábito dos brasileiros está nas ruas. A média de veículos quebrados aumentou 26,8% nos últimos anos em São Paulo, por exemplo.

Na maior cidade do País, segundo dados da CET – Companhia de Engenharia de Tráfego –, a cada dois minutos e meio um veículo fica parado nas ruas e avenidas por apresentar algum problema mecânico ou elétrico.

Em abril deste ano, a CET removeu 13.641 veículos quebrados das vias da cidade, sendo que 93% por apresentarem algum problema relacionado à manutenção. Desse total, 9.918 eram automóveis, 1.279, ônibus e 2.444, caminhões.

Parece muito? E olha que o registro de remoções feitas pela CET não contabiliza os veículos que foram guinchados pelas empresas seguradoras, portanto o número de quebras do período deve ser ainda maior.

Mudança de hábito
Embora a manutenção preventiva ainda não seja prática comum entre os brasileiros, já há casos que apontam mudança, mesmo que modesta, desse quadro. “O investimento que a indústria e toda a cadeia tem feito no sentido de divulgar os benefícios da manutenção preventiva começam a apresentar resultado. Hoje, a decisão de substituir os amortecedores quase sempre parte do proprietário do veículo”, acredita Jair Silva, Supervisor de Serviços da Affinia Automotiva.

A contribuição e ação de alguns órgãos municipais, estaduais e federais na aplicação da inspeção veicular obrigatória, como a de emissão de poluentes em São Paulo, também ajudou a mudar alguns hábitos, afirma Sonia Zanoni, da W.Zanoni: “A mídia também tem contribuído com matérias bastante esclarecedoras sobre o tema”.

Claro que uma mudança mais expressiva de hábito como essa toma tempo e a sentida no Brasil em geral ainda é bastante tímida, afirma Newton Rosset, gerente de Marketing da Rassini – NHK Autopeças: “No Rio de Janeiro é onde sinto as pessoas mais preocupadas em deixar o carro em condições melhores.

Lá os motoristas passam por um pitstop e realmente vão atrás da oficina para fazer o trabalho recomendado. Também é o lugar onde temos mais mecânicos que afirmam ser acatados por seus clientes”, diz.

Para Ricardo Cesar de Abreu, gerente Comercial Brasil da Corven, é mesmo a obrigatoriedade que fará o brasileiro mudar mais rapidamente a maneira como trata o seu possante: “Pouca gente ainda percebeu os benefícios de manter o carro em ordem; isso vai acontecer quando o consumidor se sentir pressionado pela inspeção veicular”.

Amortecedor: capítulo à parte
Se o sistema de suspensão é tão conhecido, deve toda essa fama aos amortecedores. Mesmo as pessoas mais leigas em mecânica automotiva o conhecem. E, embora muita gente ainda ache que eles servem apenas para o conforto interno do veículo, sua função vai muito além. O amortecedor é responsável por manter os pneus em contato com o solo e garantir a estabilidade do veículo.

No geral, a recomendação dos fabricantes de amortecedores para inspeção é de 10 mil km a partir da primeira troca com 40 mil km. Esse também é o período em que outros itens da suspensão, como molas e feixes (no caso dos veículos pesados), devem ser vistoriados.

Essa recomendação vale ainda para a substituição de coxins e batentes. Já os amortecedores de veículos que operam fora de estrada e zona rural, por exemplo, tendem a apresentar vida útil menor.

Mercado
Além de incentivar o brasileiro a cuidar adequadamente do carro, as empresas que atuam no setor de reposição de peças para o sistema de suspensão automotivo têm outros desafios. Enfrentar a concorrência desleal é um deles: “É muito comum você encontrar nesse mercado firmas pequenas que fabricam produtos sem nenhuma preocupação com qualidade ou especificação técnica e que, além disso, ainda sonegam impostos. Para as empresas sérias e que respeitam a cadeia de distribuição é muito complicado concorrer num ambiente como esse”, explica Rosset. A alta carga tributária do País também atrapalha, afirma Sonia Zanoni: “Isso faz com que muita gente trabalhe informalmente e ofereça custos menores e mais atrativos, porém, não podemos garantir a qualidade dos produtos por trás de empresas como essas”.

A falta de qualidade com que essas empresas atuam prejudica o mercado e, principalmente, o consumidor. “A comercialização de produtos recondicionados e importados de baixa qualidade, por exemplo, é um verdadeiro risco à segurança, uma vez que os chamados ‘recondicionadores’, em alguns casos, pintam amortecedores velhos ou apenas fazem a troca do fluído e para escoá-lo fazem um furo no corpo do amortecedor”, releva Jair Silva.

Mas a pior prática do mercado, diz Abreu, ainda vem de alguns profissionais que atuam nele: “Ainda é muito comum ver mecânicos antecipando a troca de amortecedores achando que estão ganhando, mas eles estão na verdade denegrindo a imagem de todo o setor”.

Ações
Para fazer frente aos diversos problemas e continuar contribuindo com o crescimento de um mercado saudável, as empresas que atuam no setor promovem campanhas e uma série de ações de treinamento para os representantes dos diversos elos da cadeia de reposição independente: “Ministramos palestras e mantemos um canal direto através de nosso SAC para esclarecer todas as dúvidas dos profissionais que vendem ou aplicam nossos produtos”, diz Sonia Zanoni. E quando só o atendimento no 0800 não é suficiente, essas empresas mandam promotores técnicos até as oficinas para esclarecer as dúvidas de aplicação. Graças ao programa de atendimento e suporte ao cliente que desenvolveu, a Rassini conseguiu que empresas de transporte que utilizam seus feixes reduzissem em 40% o valor gasto com manutenção do sistema de suspensão dos seus caminhões e ônibus: “Com esse pacote de soluções temos conseguido oferecer aos nossos clientes da linha pesada programas mais específicos de manutenção e isso tem feito toda a diferença”, afirma o executivo. Em relação aos programas de marketing, as empresas do segmento também não deixam por menos: “A Corven, por exemplo, que está em diversas mídias, ainda fechou uma parceria com a oficina mecânica do programa Lata Velha, da Rede Globo”, explica o representante da empresa.

Faturamento
Já em relação à crise, os executivos do setor de reposição dizem que ela afetou o mercado, mas que agora é hora de otimismo. E bota otimismo nisso. Tem empresa, como a Rassini, prevendo um crescimento de 5% do seu faturamento no mercado de reposição. Bom para eles e para o mercado nacional.

Não aplique nem comercialize amortecedores recondicionados. Saiba como identificá-los:
Os chamados amortecedores “recondicionados” são, em alguns casos, amortecedores velhos que passaram por um processo de pintura. Alguns “recondicionadores” fazem apenas a troca do fluído e para escoá-lo fazem um furo no corpo do amortecedor. Com este procedimento, todas as partículas geradas pela broca vão para o interior da peça e em pouquíssimo tempo de uso todos os componentes internos, que já estavam com a vida útil comprometida, terão o desgaste acelerado por essas partículas. Outros “recondicionadores” abrem a peça mas não fazem a substituição de componentes como selo de vedação, pistão e tubo, que também sofrem desgaste com o tempo de uso.

No caso do amortecedor estrutural, não há no mercado teste que garanta que sua estrutura está em boas condições e que podem ser reaproveitadas. O melhor a fazer é seguir rigorosamente a orientação do fabricante do veículo. No caso dos reparadores, é bom lembrar que a lei pode responsabilizá-los por panes ou acidentes provocados pela aplicação de peças irregulares no veículo. Por isso, fique de olho e não corra esse risco.

Bate-Bola
Fernanda Giacon, analista de Marketing da TRW Automotive, uma das mais renomadas fabricantes de componentes para o sistema de suspensão automotiva, conta que para uma empresa sobreviver no mercado de reposição brasileiro é preciso investir muito. No ano passado, a companhia, que oferece ao mercado de reposição uma linha com mais de 600 itens para as linhas leve e pesada, entre pivôs, terminais e barras de direção, ligação, central e estabilizadora, faturou no Brasil R$ 1,7 bilhão. Confira trechos do bate-papo:

Mercado Automotivo – O que a empresa oferece de novo para o aftermarket e em que diferenciais tem investido para conquistar novos clientes?
Fernanda – Nos últimos anos aumentamos nosso portfólio de produtos em mais de dois mil novos itens. Só em 2009, a TRW lançou 80 itens de cilindros de embreagem e mais de 40 itens para ampliar seu portfólio de suspensão. Especialmente para a linha de suspensão, desenvolvemos uma ferramenta para verificação de deslocamento axial (folga) em terminais de direção de veículos da linha pesada. Essa ferramenta de medição exclusiva vem de encontro com uma demanda dos usuários de nossos produtos que tinham dificuldade para estabelecer um critério técnico durante verificação dos terminais de direção para veículos pesados. O medidor estará disponível ao mercado até o final de agosto e fará parte da linha de ferramentas TRW ProSeg.

Mercado – O que mais a empresa oferece aos clientes e ao mercado de uma forma geral?
Fernanda – Para fidelizar nosso cliente e conquistar novos, a empresa promove atualização permanente de sua linha de produtos e vem investindo no relacionamento, com a presença constante de profissionais qualificados para realizar o atendimento ao cliente. Outra frente de ação é a disseminação de conhecimento, que ocorre com a realização de palestras e a divulgação de informações técnicas por meio de revistas, jornais, internet e promoções focadas diretamente no cliente.

Mercado – Como essas ações de relacionamento são voltadas a cada um dos elos da cadeia?
Fernanda – Investimos continuamente na construção de um forte relacionamento com todos os elos da cadeia de reposição. Isso inclui desde atendimento comercial, processos de entrega e logística até comunicação e promoção. A aliança que desenvolvemos com os principais distribuidores do setor é vitoriosa. Compartilhamos conhecimento com nossos distribuidores, com a promoção de palestras, por exemplo, sobre os rumos da economia brasileira. Além disso, a TRW tem investido em promoções e ações que favorecem os negócios dos distribuidores, dos reparadores e do varejo. Recentemente, por exemplo, lançamos uma linha de atuadores hidráulicos de embreagem com mais de 80 itens. Na compra dele, damos ao cliente um frasco de fluido para freios de 500 ml.

 
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