Edição 174 - Entrevista
 
Olhos da Indústria
Paulo Skaf
 
Texto: Christiane Benassi

Em entrevista exclusiva à Mercado Automotivo, Paulo Skaf, presidente da Fiesp/Ciesp, fala abertamente sobre a crise que atinge a atividade produtiva em todo o mundo. Do Brasil, especificamente, mostra caminhos para uma mudança de cenário e analisa a performance da indústria nacional.

  Paulo Skaf
  Paulo Skaf
   

Mercado Automotivo: Na sua opinião, quais são hoje os maiores entraves à atividade industrial brasileira? Na prática, como eles afetam as empresas?
Paulo Skaf: Neste momento, a crise financeira mundial é nosso maior desafio. Se tivéssemos mantido o ritmo de crescimento da produção e do consumo como estávamos até outubro de 2008, o Brasil teria crescido 7% no ano passado. Agora, para garantir a alta do PIB num cenário mundial de retração, é importante tomar medidas urgentes para lutar contra velhos e novos problemas.
Os mais urgentes, eu diria, são as altas taxas de juros do País, os spreads bancários, a carga tributária excessiva, além da falta de acesso ao crédito para as micro e pequenas empresas.
Mais do que nunca, o governo brasileiro precisa dedicar-se à solução desses entraves, pois a crise evidencia as fragilidades do País ante os furacões do sistema financeiro globalizado.
Não fizemos as lições de casa quando tínhamos céu de brigadeiro. Agora, teremos de realizá-las em meio à turbulência.

Mercado Automotivo: O que deve ser feito para mudar esse cenário? Algumas medidas já têm sido adotadas?
Skaf: É hora de união e de entendimento. Não podemos radicalizar, pois caso contrário todos nós sairemos perdendo. Temos que deixar as paixões de lado e juntos — empresários, trabalhadores e governo — buscarmos soluções. Muitas medidas vêm sendo tomadas, mas, nesta fase, nossa maior preocupação é evitar o desemprego.

Mercado Automotivo: Quais são os impactos da crise financeira mundial no setor industrial brasileiro? Em que proporção ela atinge os negócios e empregos?
Skaf: A crise é séria, grave e desconhecida. A demanda e a produção nacional estão encolhendo e já sentimos as consequências sobre o emprego. Por isso, hoje, nossa maior preocupação é encontrar saídas contra o desemprego.
Para combatê-lo, a Fiesp acredita que não é necessário flexibilizar ou criar novas leis, mas sim utilizar os recursos já previstos na Constituição brasileira, como a redução da jornada de trabalho, banco de horas, férias coletivas, enfim.
É nossa obrigação dialogar com as centrais sindicais e buscar acordos para cada caso, tudo dentro da lei, com diálogo e transparência. O tempo poupado dos empregados pode ser preenchido com cursos gratuitos de qualificação profissional.
No Senai de São Paulo, por exemplo, oferecemos 100 mil vagas para trabalhadores que tiverem redução ou suspensão da jornada de trabalho.

Mercado Automotivo: O senhor acredita em uma retomada?
Skaf: Sim, tenho confiança que o talento, a coragem e a capacidade de nosso povo vão superar mais esta adversidade.
O brasileiro já enfrentou muitas crises e sobreviveu a todas. O que não podemos afirmar, neste momento, é quanto tempo a crise irá durar, isto seria praticar “futurologia”.

Mercado Automotivo: As demissões na indústria brasileira, férias coletivas e outras medidas são efetivamente consequências da crise internacional?
Skaf: Somente quem está vivendo o problema diretamente tem condições de avaliar as necessidades que o tamanho da crise impõe sobre o seu negócio. Ninguém demite por prazer.
O empresário não gosta de demitir. Demissões significam redução da produção e isso é péssimo para o País. Devemos buscar outras saídas; este é o último recurso.

Mercado Automotivo: A indústria automotiva, mais especificamente, é na sua opinião a que mais sofre com esse cenário?
Skaf: Como sabemos, o setor automobilístico é um dos mais atingidos pela crise e, como consequência, toda a cadeia, como os segmentos de autopeças e de metalurgia, foi a primeira a sentir os efeitos da redução de produção de automóveis.
Mas há outros setores castigados pelos efeitos da retração do crédito e das exportações, como o de máquinas e equipamentos, por exemplo.

Mercado Automotivo: Nos últimos anos assistimos à saída de empresas da capital paulista, mas São Paulo continua sendo o grande pólo industrial do País. O que isso significa para a economia brasileira?
Skaf: A indústria paulista, diversificada e moderna, contribui de maneira substancial para que São Paulo responda por mais de 40% do PIB nacional e para que a economia do Estado seja a mais pujante da América do Sul. Sobre a guerra fiscal, a Fiesp apresentou propostas ao texto da Reforma Tributária, ao final do ano passado, de modo a melhorar o sistema de tributos no País, já que este é um gargalo que prejudica não apenas a classe industrial produtora, mas todos os brasileiros.
Nossa carga tributária é muito alta e, por este motivo, uma das medidas que defendemos é a cobrança do ICMS no local do consumo do produto e não no Estado onde a mercadoria foi produzida.
Isto significaria não apenas uma simplificação do recolhimento do ICMS, mas também o fim da guerra fiscal, uma vez que os Estados deixariam de conceder benefícios para atrair investimentos.

 
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