Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 264

MATÉRIA DE CAPA - Edição 264: Agosto DE 2017
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Por Redação

Houve um tempo em que veículos elétricos ou híbridos figuravam apenas em publicações e histórias que buscavam imaginar nosso mundo muitas décadas à frente. A imaginação a respeito do que poderia ser o futuro dos veículos representava apenas mais uma visão, uma nova análise sobre um cenário que não necessariamente guardava qualquer relação com a realidade.

Isso mudou. Os veículos elétricos passaram a ser fabricados e vendidos por determinadas montadoras recentemente.

Como tudo o que é novo, a presença desses carros no mercado passou a ser vista como o único futuro possível e imaginável para o setor automotivo mundial, ainda que a participação de modelos deste tipo nas vendas globais fosse irrisória.

Com o passar dos anos, passado o frisson causado pela novidade, foi possível observar e analisar com mais calma os resultados apresentados pelos veículos elétricos, de modo a compreender melhor se o modelo “veio para ficar”.

Profissionais especializaram-se no assunto e as montadoras passaram a investir com parcimônia em modelos do tipo, cientes de que as mudanças deverão ocorrer aos poucos.

Atualmente, entretanto, o que se observa é que os veículos elétricos deverão, de fato, ampliar sua presença em alguns mercados, especialmente na Europa e nos Estados Unidos.

Isso, no entanto, só deve ocorrer de forma gradativa, sem grandes saltos de popularidade.

Para o especialista no assunto Renato Romio, chefe da Divisão de Motores e Veículos do Centro de Pesquisas do Instituto Mauá de Tecnologia, os veículos elétricos podem ser considerados, de fato, o futuro do setor automotivo.

Mas, de acordo com ele, ainda não é possível apontar quando haverá um volume considerável desses carros no total de vendas de novos veículos.

“Certamente na Europa ainda irá demorar cerca de 10 anos e nos Estados Unidos mais tempo ainda”, avalia o especialista, em entrevista exclusiva à revista Mercado Automotivo.

Neste cenário, o veículo híbrido que contempla a utilização de dois motores (um a combustão e outro elétrico) passou a ganhar espaço e relevância em um mercado que parece ainda não estar pronto para realizar uma transição tão severa.

Em terras brasileiras, a tecnologia dos veículos elétricos ainda é pouco conhecida, especialmente se pensarmos no amplo mercado consumidor do País. Conforme explica Romio, as pesquisas a respeito desse modelo de veículo têm sido concentradas na Europa, mas isso não impede que o Brasil passe a vivenciar mais as características e principais benefícios de um veículo movido a eletricidade.

“Por necessidade, a maior parte das pesquisas relacionadas com veículos elétricos está na Europa. Quando a tecnologia ingressar aqui no Brasil, como já vem ocorrendo lentamente, isso será na forma de importados. Pode ser atualmente ou daqui a 10 anos, mas a tecnologia será importada.

Isso é natural, mas temos que pensar em fabricar carros e componentes aqui no País e isso depende mais da competitividade da nossa indústria do que do mercado interno”, complementa o especialista.

Além disso, há outros fatores que podem ser responsáveis pelo discreto crescimento do interesse do brasileiro por veículos elétricos ante os “tradicionais”.

Desde o início das pesquisas, os carros elétricos foram apresentados a partir de um viés ambientalista. Não deixa de estar certo, afinal os carros elétricos apresentam melhor eficiência energética e emitem menos gases e ruídos.

No entanto, a temática ambiental (tanto no Brasil quanto em outras regiões do mundo) foi muito explorada por diversos segmentos e setores, tornando o assunto praticamente saturado do ponto de vista da atração que exerce no grande público.

No Brasil, diante dos anos de crise econômica recentemente enfrentada pelo país, boa parte das pessoas acabou simplesmente deixando de lado a preocupação ambiental para voltar-se ao assunto que, de fato, lhes tirava o sono: o próprio bolso. Resumindo, é difícil acreditar que os brasileiros irão “comprar” tamanha mudança simplesmente devido ao aspecto ambiental do tema.

“A diferença de preços entre um veículo tradicional e um híbrido é de cerca de 15%. O que deve assustar são os valores de seguro e eventuais necessidades de trocas de baterias”, avalia Romio. Além disso, o fato de os modelos elétricos ainda não serem populares gera receio dos brasileiros em apostar em algo que, posteriormente, poderá lhe trazer gastos mais altos que os esperados.

Neste cenário, um dos maiores equívocos dos entusiastas dos veículos elétricos no Brasil foi de não ter focado a campanha de popularização do assunto também no fato de que estes modelos geram sensível economia de combustível. Algo que, conforme recorda Romio, acaba relacionando-se com o próprio meio ambiente.

Previsões otimistas
A análise do futuro dos veículos elétricos no mundo também tem seu viés mais otimista.

Uma das possibilidades consideradas é que a queda significativa no preço das baterias deverá resultar em um custo de vida mais baixo para os veículos elétricos. O preço de compra desses modelos também seria impactado positivamente.

A análise acima faz parte do novo estudo elaborado pela equipe de transportes da Bloomberg New Energy Finance (BNEF), empresa de pesquisa de indústria focada em ajudar profissionais do setor de energia a gerar oportunidades. A partir do trabalho de 200 experts espalhados por todo o mundo, a entidade chegou à conclusão de que os veículos elétricos serão responsáveis pela maioria das vendas de automóveis novos em todo o mundo até 2040 e vão representar 33% de todos os veículos leves de passeio.

Para chegar a estes números, a equipe de pesquisa baseou-se em análises detalhadas das prováveis futuras reduções no preço das baterias de íon de lítio e também em perspectivas para os outros componentes de custo em veículos elétricos e veículos com motores de combustão interna, ou ICE (sigla em inglês). Além disso, de forma subsidiária, os especialistas levaram em consideração o que chamam de “crescentes compromissos” das montadoras em relação aos veículos elétricos, inclusive no que diz respeito à possibilidade de lançamentos de novos modelos desse tipo.

A entidade aponta para o fato de que a chamada “revolução dos veículos elétricos” deverá atingir o mercado automotivo com mais força e rapidez do que a própria BNEF previu há um ano. “A equipe agora estima que os veículos elétricos representarão 54% de todas as novas vendas de veículos leves de passeio em todo o mundo até 2040, e não os 35% de participação previstos anteriormente. Até 2040, os EVs (sigla em inglês para veículos elétricos) vão remover 8 milhões de barris de combustível de transporte por dia e adicionar 5% ao consumo global de eletricidade”, conforme comunicado divulgado à imprensa.

“Vemos um momento de inflexão importante para a indústria automotiva global na segunda metade da década de 2020. Os consumidores descobrirão que os preços de venda antecipados para EVs são comparáveis ou inferiores aos dos veículos ICE (veículos com motores de combustão interna) comuns em quase todos os grandes mercados até 2029”, complementa Colin McKerracher, principal analista em transportes avançados da BNEF.
As estimativas são agressivas. De acordo com os dados levantados pela BNEF ao redor do globo, as vendas de veículos elétricos mundialmente deverão crescer de forma constante nos próximos anos, do recorde de 700 mil visto em 2016 para 3 milhões até 2021. “Nesse momento, eles representarão quase 5% das vendas de veículos leves de passeio na Europa, um aumento de um pouco mais de 1% atualmente, e cerca de 4% nos EUA e na China”, avalia a BNEF. Para a entidade, entretanto, o impulso real para os veículos elétricos deverá ser registrado a partir da segunda metade da década de 2020 quando: (a) os carros elétricos terão um custo de propriedade mais baixo ao longo da vida útil do que os modelos com motores de combustão interna; e (b) haverá um momento ainda mais importante psicologicamente para os compradores – quando seus custos iniciais ficarão abaixo dos custos dos veículos convencionais.

Os preços das baterias de íon de lítio também terão importante papel na popularização dos veículos elétricos. De acordo com o estudo, os valores do produto apresentaram queda de 73% por kWh desde 2010. A expectativa, no entanto, é que ocorra uma nova queda de 70% no índice até 2030, graças, principalmente, às melhorias de fabricação e à densidade de energia mais do que duplicada da bateria.

Para Jon Moore, diretor executivo da BNEF, o crescimento da fatia de mercado dos veículos elétricos ocorrerá num momento no qual o sistema de energia também estará passando por uma revolução, para uma geração mais limpa e distribuída. “Isso significa que não só os veículos elétricos vão crescer, mas seu perfil de emissões também vai melhorar ao longo do tempo”, completa.

Quem se debruça sobre a atual realidade dos veículos elétricos – não apenas no Brasil, mas especialmente na Europa e nos Estados Unidos – garante que o modelo estará cada vez mais presente na vida das pessoas daqui para frente. No entanto, tal avaliação não deve servir para acomodar aqueles que se dedicam ao assunto. Ao contrário, a estrutura que dará todo o suporte para que alguém decida adquirir um veículo elétrico no mundo ainda é muito deficitária. E isso precisa ser corrigido o quanto antes por meio de investimentos e pesquisas.

“Há um caminho viável para um forte crescimento de EVs, mas ainda é necessário muito mais investimento em infraestrutura de carregamento em todo o mundo. A incapacidade para fazer o carregamento em casa, em muitos mercados locais e regionais, faz parte da razão pela qual prevemos que os EVs representem pouco mais de um terço da frota de carros globais em 2040 e não um número muito maior”, conclui Salim Morsy, analista sênior da equipe de transportes avançados da BNEF e principal autor do relatório.

O futuro, de fato, parece guardar espaço para os veículos elétricos e híbridos. Se não houver investimento e dedicação dos envolvidos, no entanto, esse futuro continuará distante no que diz respeito à popularização do modelo em diversos mercados. Inclusive entre os consumidores brasileiros.

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