Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 262

MATÉRIA DE CAPA - Edição 262: Junho DE 2017
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Por Redação

Prever o futuro é uma habilidade que alguns dizem possuir, mas que a grande maioria das pessoas considera irreal e fantasioso. Afinal, se pudéssemos garantir o que irá ocorrerá daqui para frente, certamente nossas decisões nasceriam de forma muito mais simples e segura. O que as consultorias buscam fazer, portanto, é trazer elementos, informações e projeções que possam auxiliar a tomada de decisões de executivos e de empresas em diversos setores.

A mais recente edição de um estudo desenvolvido pela consultoria Deloitte em 17 países acendeu uma luz de alerta em relação aos rumos do setor automotivo global. A partir das informações e análises exibidas no levantamento é possível também chegar a um recorte acerca do que pode ocorrer especificamente no mercado brasileiro. E a conclusão do Global Automotive Consumer Study: Future of Automotive Technologies (Estudo Global do Consumidor Automotivo, em tradução pura) chama a atenção para uma possível mudança significativa no cenário nacional: dentre os entrevistados brasileiros que utilizam serviços de veículos compartilhados para se locomover, mais da metade (55%) questionam a necessidade de ter seus próprios carros.

A informação não chega a representar uma grande novidade se levarmos em consideração o cotidiano de grandes cidades brasileiras. Com a proliferação de serviços que, em tese, funcionam como compartilhamento de veículos, diversas pessoas passaram a deixar seus carros na garagem. O valor cobrado, em muitos casos, é sensivelmente inferior àqueles praticados por táxis comuns e isso fomentou o uso dos serviços de compartilhamento inclusive entre públicos que tradicionalmente usavam o carro próprio e/ou o transporte público para locomoção.

Jovens e adultos da classe C passaram a utilizar o compartilhamento de veículos e deixaram de lado o transporte público, especialmente em momentos de lazer, quando podem dividir o custo da viagem com amigos. Uma das principais empresas que oferecem o serviço, inclusive, passou a disponibilizar aos usuários uma opção que compartilhava o mesmo carro durante um mesmo trajeto entre duas pessoas ou mais. Ou seja, você aciona o serviço ciente de que, durante o trajeto, outro usuário irá embarcar, para desembarcar posteriormente antes ou até após seu destino final. Com isso, a viagem sai ainda mais barata para cada um dos usuários.

A classe B e parte da classe A também migraram para este tipo de serviço, sob o argumento principal de que a qualidade e a quantidade dos carros disponíveis aos usuários eram superiores aos táxis tradicionais. Assim, o brasileiro, que até então chegava a ter mais de um carro no núcleo familiar para fugir do rodízio, passou a deixar seu veículo na garagem. Encostado na garagem.

Efeitos no aftermarket
Mas afinal, como tudo isso poderá afetar o setor automotivo brasileiro, especialmente o segmento de aftermarket? A consequência mais evidente está ligada à diminuição do uso de veículos próprios. Recentemente, o Brasil tem experimentado uma queda sensível na quantidade de carros vendidos. Em 2016, por exemplo, a venda de veículos novos caiu 20,1% na comparação com o ano anterior, de acordo com dados da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores). Foi o quarto ano seguido de queda no índice, mas é preciso também levar em consideração que os resultados alcançados nos últimos “anos de ouro” do setor automotivo brasileiro (até 2010) aumentaram consideravelmente a base de comparação. Além disso, quem trocou de carro naquele período dificilmente voltaria a repetir o processo nos anos seguintes, em meio à forte crise econômica que afeta até hoje o Brasil.

Em um primeiro momento é possível ver com otimismo os números desse cenário. Afinal, quem não optou por comprar um carro novo, invariavelmente usará seus recursos para reformar e atualizar seu veículo usado. O cenário, dessa forma, é favorável ao segmento da reposição automotiva.

O problema, no entanto, é justamente o futuro. Afinal, se o mercado não se movimenta, todos no setor perdem, ainda que esse prejuízo apareça em momentos diferentes para os variados elos da cadeia.

O que o estudo da Deloitte mostra é uma forte inclinação de parte dos entrevistados brasileiros em abrir mão de seus carros, de modo a utilizarem os serviços de transporte compartilhado.

A tendência é ainda mais evidente quando leva em consideração apenas a opinião dos mais jovens, que pertencem às chamadas gerações Y e Z. Neste público, entre aqueles que utilizam os serviços de veículos compartilhados, 62% consideram dispensável possuir um veículo no futuro.

“Nossos jovens estão cada vez mais inclinados a abrir mão de ter a propriedadede um carro, preferindo vivenciar esse movimento do compartilhamento, o que é um indicativo muito importante da tendência futura de consumo. Cabe à indústria automotiva acompanhar muito de perto essa nova realidade”, explica Reynaldo Saad, sócio líder da área de Bens de Consumo e Produtos Industriais da Deloitte Brasil. Saad falou ainda sobre a porcentagem de brasileiros que dizem utilizar veículos compartilhados para locomoção.

“A pesquisa apurou que a maioria dos brasileiros (64%) afirma nunca, ou quase nunca, utilizar serviços de compartilhamento de veículos. Isso é compreensível, já que nosso País é muito grande e esses serviços só estão disponíveis nos grandes centros urbanos. Mas é interessante perceber que 43% dos jovens que participaram do estudo utilizam esse serviço pelo menos uma vez por semana”, completou.

A pesquisa da Deloitte foi realizada em 17 países, com questionários on-line aplicados a mais de 20 mil consumidores, dentre os quais 1.260 eram brasileiros. O levantamento buscou avaliar também como os consumidores têm se comportado no que diz respeito à aquisição e manutenção de seus veículos.

É aqui que reside um importante ponto para o setor de reposição automotiva. O estudo identificou um considerável recuo na disposição do brasileiro de investir em recursos tecnológicos embarcados nos veículos.

O levantamento anterior, realizado em 2014, indicou que os brasileiros naquela época diziam poder gastar até R$ 5.951 em média para contar com ter determinados equipamentos tecnológicos em seus veículos.

Em 2016, entretanto, essa pretensão de gasto caiu para a média de R$ 1.995.

A Deloitte explica que são dois os fatores primordiais para explicar essa queda. O primeiro é a crise econômica, que invariavelmente reduziu o poder de compra das famílias brasileiras e limitou uma série de gastos. O segundo é o fato de que os consumidores, atualmente, já contam com diversos recursos tecnológicos em seus próprios smartphones. Obtidos, em sua maior parte, de forma gratuita, esses recursos complementam e facilitam a experiência de conduzir um veículo.

“Afinal, por que o consumidor vai pagar mais por um avançado sistema multimídia automotivo se ele já tem vários recursos disponíveis gratuitamente em seu celular, e que facilmente podem ser usados em veículos? Cabe à indústria se adequar a essa realidade criada pelas tecnologias móveis e permitir que os novos automóveis facilitem a conexão para valorizar a experiência dos consumidores, que estão cada vez mais cautelosos no momento de gastar seu dinheiro. Firmar parcerias e oferecer serviços agregados ao produto também devem ser soluções que permitirão à indústria automobilística atrair clientes”, explica Carlos Ayub, sócio da Deloitte especializado em Indústria Automotiva.

Importante salientar, no entanto, que o brasileiro não deixou de pensar em seu carro. Ainda que a pesquisa (e os demais índices e fatos que vivenciamos no dia a dia do país) mostre um cenário muito diferente para o uso dos carros, é preciso considerar que, neste momento, cabe à própria indústria investir e pensar em alternativas que garantam a fidelidade contínua de seus consumidores.

Algo identificado no estudo é que os itens tecnológicos mais valorizados pelos brasileiros são os relacionados à segurança. Isso mostra que o brasileiro tem total consciência das particularidades existentes no trânsito do país e preocupa-se com pontos que não podem ser repassados a terceiros. Cabem a ele próprio, afinal dizem respeito ao seu próprio estilo de condução.

Os quatro sistemas considerados prioritários pelos participantes do estudo são: de reconhecimento de objetos na via para evitar colisões; de bloqueio de funções do veículo diante de situações de condução perigosa; de avisos de situações de condução perigosa; e de conexão autônoma do veículo para relatar e contatar autoridades ou outros serviços quando ocorre uma emergência médica ou acidente.

Ou seja, cabe agora à indústria (tanto aos que atendem as montadoras quanto aos que desenvolvem novas tecnologias e recursos para o aftermarket) pensar em itens e produtos que possam agregar valor ao veículo do consumidor. Componentes que tragam maior segurança ao ato de dirigir. Cientes de que esse cuidado com a direção deve ser particular, os consumidores brasileiros não irão se sentirão-se dispostos a “entregar seu transporte” definitivamente a terceiros. Dessa forma, a posse de um carro deixará de ser questionável para boa parte dos consumidores, tornando-se essencial em um mundo no qual o próprio veículo poderá lhe fornecer serviços e soluções que tornarão o trânsito muito mais seguro.
Além disso, é válido pensar nas dificuldades geradas por um país de tamanho continental na adoção de um cenário no qual as pessoas simplesmente compartilham um veículo de transporte. A falta de padronização dos serviços e o aumento dos tributos a partir da regularização dos aplicativos poderá resultar em queda de dois fatores considerados primordiais para quem opta por esse tipo de transporte: a qualidade e a confiabilidade do transporte, bem como o preço cobrado nas viagens quando se compara aos valores gastos com táxis comuns e/ou com o uso de um veículo próprio.

A conclusão do estudo é que a indústria automotiva, em especial a nacional, tem um grande desafio para garantir sua sustentabilidade diante das mudanças de comportamento dos consumidores estimuladas pelas novas tecnologias. “Diante dessas tendências, a indústria automotiva deve estar preparada para compreender e se adaptar às novas demandas dos consumidores”, conclui Saad.

As dificuldades, portanto, existirão. Mas o setor automotivo brasileiro – em especial o aftermarket – tem plena capacidade de crescer, evoluir e se adaptar às novas tendências dos consumidores nacionais.

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