Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 259

MATÉRIA DE CAPA - Edição 259: Março DE 2017
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Por redação

O sujeito vai até o shopping e se encaminha até a praça de alimentação para almoçar. Escolhe o que vai comer, paga, pega a comida e então começa a saga para conseguir uma mesa vazia em pleno “horário de pico” deste tipo de estabelecimento.

No local, uma variedade de pessoas almoçando sozinhas, cada uma em uma mesa que comporta duas pessoas. Dividir a mesa? Jamais! O sujeito prefere seguir buscando até encontrar um lugar, ou melhor, dois, no qual poderá enfim ter sua refeição. A cena acima é extremamente comum nas maiores metrópoles brasileiras, especialmente em São Paulo.

Na capital paulista, os cidadãos estão mais do que acostumados a jamais dividir sua mesa de refeição durante o almoço, ainda que o local esteja cheio e que ele próprio esteja sozinho. Há quem, inclusive, se ofenda quando um “estranho” pergunta se poderia dividir a mesa. Afinal, ninguém se conhece. E, muitas vezes, sequer deseja se conhecer. Essa cultura, no entanto, vem mudando nos últimos anos. De forma gradual, sem grandes saltos, mas atingindo um número cada vez maior de pessoas. Primeiro o sujeito aceita dividir a mesa no almoço. Depois, aceita dividir o táxi com alguém que utilizará o mesmo trajeto.

Com o tempo, aquela realidade vista em tantos outros países desenvolvidos pelo mundo vai se tornando mais viável também no Brasil: cidadãos dividindo o motorista particular, a hospedagem e até a carona. São inúmeros os aplicativos que buscam viabilizar esse tipo de movimento. O grande ponto é que essa cultura de compartilhamento está chegando também ao ambiente empresarial. Ainda que de forma discreta, mais e mais empresas têm optado por aplicar o mesmo conceito na logística demandada por seus negócios.

Quem chama a atenção para o assunto é Alexandre Azevedo, diretor da Unidade Private da TOTVS, provedora de soluções de negócios para empresas de todos os portes. “O principal desafio é quebrar a cultura de olhar para o mercado e ver apenas concorrentes, quando muitas empresas podem ser aliadas e cooperar com a sua operação”, afirma Azevedo, ao falar sobre as resistências que a novidade ainda enfrenta no Brasil.

De acordo com ele, o que ainda impera no país é a ideia de que cada empresa deve ter seus núcleos de distribuição e infraestruturas próprias para suportar suas operações. No entanto, especialmente em um cenário de crise como este que enfrentamos, manter um espaço e o um sistema próprios pode, muitas vezes, trazer sérios impactos nas finanças das companhias.

“A ideia [do compartilhamento] é baseada no conceito de economia colaborativa, em que pessoas com interesses e necessidades comuns dividem ou trocam serviços e produtos, o que é amplamente facilitado pelo uso de plataformas digitais.

No Brasil, no entanto, quando falamos de logística, a realidade é diferente. As grandes empresas ainda mantêm núcleos de distribuição e infraestruturas próprias”. A resposta para esta mentalidade individualista até mesmo das empresas brasileiras? A cultura. Afinal, se muitos ainda não aceitam sequer dividir uma mesa durante uma hora em seu período de almoço, imagine convencê-los de que a logística de suas empresas pode (e deve) ser compartilhada para mitigar custos. “Por aqui, já existem algumas iniciativas de centros de logística compartilhados (CLC), mas ainda é algo incipiente.

A exemplo dos CSCs (centros de serviços compartilhados) – que levaram um certo tempo para amadurecer, mas hoje já estão bem difundidos no país – os CLCs estão percorrendo o mesmo caminho e representam uma nova fronteira para o mercado. Estamos nos acostumando com novas formas de nos locomover na vida pessoal e o setor empresarial vem acompanhando essas tendências de perto. Muito mais do que atitude, é questão de sobrevivência”, alerta o especialista.

Os números realmente impressionam. Segundo informações divulgadas pelo Instituto de Logística e Supply Chain, os custos direcionados às atividades inerentes à logística – ou seja, despesas com transporte, estoque, armazenagem e serviços de administração – consumiram 12,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o equivalente a R$ 749 bilhões. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos o índice representa 7,8% do PIB, quase metade do cenário no Brasil. De acordo com Azevedo, o transporte no Brasil é o item que consome a maior parte da quantia dedicada pelas empresas para a logística. O cenário já seria difícil se o país fosse menor, mas o fato de o Brasil ser uma nação continental nada facilita a tarefa das empresas de entregar com a mesma qualidade no Rio Grande do Sul e no Amazonas.

O cliente, obviamente, não entende e aquelas companhias que não têm condições de se estabelecer em todas as regiões brasileiras, acabam simplesmente limitando consideravelmente seu raio de atuação. Algumas delas, inclusive, chegam a atuar em apenas um Estado, para evitar despesas exorbitantes com a entrega em outras localidades do país. Ainda assim, ao final, o transporte é responsável por consumir 6,8% do PIB brasileiro, o que representa espantosos R$ 401 bilhões. “A alta porcentagem está diretamente relacionada à malha rodoviária deficiente, encargos fiscais e combustíveis a preços exorbitantes.

Sem deixar de mencionar o gasto com seguro, já que determinadas cargas sofrem assaltos constantes. Todas essas variáveis impactam no valor final do produto e comprometem a competitividade da indústria nacional”, explica o especialista, que faz questão de destacar também os impactos gerados ao próprio consumidor.

“A sociedade depende da entrega desses produtos, uma vez que as fábricas migraram dos grandes centros para locais mais afastados. Porém, a conta fica mais cara no supermercado porque boa parte dos gastos com logística são embutidos no preço final da mercadoria. Outro ponto importante é que as empresas, com o cenário econômico instável, passaram a racionar ao máximo as suas estruturas de armazenamento e transporte.

Quanto mais centros, mais custos com infraestrutura e mão de obra. Tudo isso transforma a operação logística em uma atividade crítica”, completa.

O QUE FAZER?

Identificado o problema, é hora de pensar em soluções. Para Azevedo, uma das atitudes mais simples e que pode ser adotada sem grandes revoluções nos sistemas das empresas está diretamente ligada ao transporte das mercadorias. “Incontáveis vezes, vemos caminhões vindos de outros Estados que, após descarregarem, voltam para suas cidades de origem vazios. Por que não apro

veitar essa viagem e voltar com uma carga diferente? O conceito de compartilhamento aplicado no setor é focado na otimização dos recursos. Uma empresa tem uma frota de veículos moderna, mas o seu armazém precisa de reparos, enquanto na outra organização a situação é inversa. Por que não combinar o melhor das duas?

A ideia é fazer com que ativos reduzam de maneira inteligente a conta para ambas as companhias”, explica. A ideia, de fato, pode ser aplicada pela própria indústria de autopeças. Não se trata de terceirizar a entrega e sim organizar os trabalhos de modo que o transporte seja otimizado e seus custos diminuam. Ao citar essa estratégia para empresários, no entanto, é comum ouvir a resposta: “Mas iremos abrir nossos números aos concorrentes?” Obviamente não. O objetivo aqui é pensar a logística de forma inteligente.

Se sua empresa destina, por exemplo, cinco caminhões de peças para o Estado do Ceará a partir da unidade da Bahia, por que não se organizar de modo que outra companhia (seja do seu setor ou não) possa aproveitar a viagem de volta para levar seus produtos do Ceará novamente para a Bahia? “Um exemplo de sucesso são duas empresas brasileiras do ramo editorial que uniram as suas estruturas para a entrega de jornais”, exemplifica o especialista. “Quem mora em um condomínio já deve ter percebido que muitos dos seus vizinhos leem jornais de marcas diferentes.

Esses dois grandes jornais também perceberam isto e esqueceram as suas diferenças em troca de melhor eficiência operacional para ambas as empresas e, a partir disso, o mesmo caminhão leva exemplares das duas publicações. Em determinados casos, é muito simples fazer essa combinação. O caminhão que trouxe um carregamento de papel higiênico pode voltar abastecido de produtos de limpeza, por exemplo”, completa. Azevedo afirma ainda que a tecnologia pode ser muito útil justamente para organizar as estratégias de logística compartilhadas.

O próprio mercado de Tecnologia da Informação já oferece plataformas que consolidam em painéis todas as atividades, incluindo o planejamento da organização da carga dentro do veículo (o que vai ser descarregado primeiro, fica mais próximo da porta) e combinações de rotas para formar circuitos ou sequências colaborativas de carregamentos. “Com o apoio da tecnologia é possível fazer a gestão inteligente, com previsão de um plano de cargas pelo menor custo de fretes ou a melhor margem financeira para a operação.

Os sistemas indicam também as melhores possibilidades de carregamento das entregas, considerando o valor das mercadorias permitidas pela seguradora, a restrição de capacidade física do veículo e a limitação de empilhamento de acordo com a fragilidade dos produtos. Além disso, é possível evitar combinar objetos que, por regras sanitárias, não podem estar no mesmo ambiente”, complementa. Independentemente da estratégia adotada, Azevedo reconhece que uma das principais dificuldades para estabelecer esse tipo de logística compartilhada é, de fato, quebrar a resistência que a ideia ainda enfrenta nos diversos setores em que poderia ser adotada, inclusive no automotivo.

“O principal desafio é quebrar a cultura de olhar para o mercado e ver apenas concorrentes, quando muitas empresas podem ser aliadas e cooperar com a sua operação”, complementa o especialista. É claro que, ao pensar em estratégias relacionadas a compartilhar logística, invariavelmente as empresas se voltarão para os concorrentes do setor. Afinal, a área de atuação é a mesma, as regiões de trabalho muitas vezes convergem e as próprias estratégias podem ser similares. Qual seria a solução mais comum? Fechar-se e evitar qualquer tipo de proximidade com a concorrência. No entanto, tome sempre as mesmas atitudes e terá sempre os mesmos resultados.

Dessa forma, para fazer algo diferente na crise, por que não estudar estratégias que possibilitem ações de logística compartilhada? Tratar concorrentes, na medida do possível, como parceiros. Ao menos no que diz respeito à logística. A economia gerada poderá compensar qualquer resistência.

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