Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 254

MATÉRIA DE CAPA - Edição 254: Agosto DE 2016
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Por Redação

Pobre daquele que, neste momento que o País atravessa, sugerir investimentos em inovação à sua empresa ou organização. Afinal, quando falamos hoje em voltar os olhos da companhia para esta questão em específico, o que se entende de imediato é que será necessário gastar rios de dinheiro. E, pior, sem retorno garantido.

Graças à crise econômica que o Brasil enfrenta atualmente, muitas empresas foram praticamente obrigadas a reduzir custos. Cada uma avaliou melhor suas alternativas, mas fato é que parte dos brasileiros teve de lidar com o desemprego novamente, um fantasma que para muitos estava simplesmente enterrado em algum lugar do passado.

Falar, portanto, em aumentar os custos nesse momento pode soar como uma insanidade, mesmo em diferentes segmentos industriais do Brasil. O que poucos pensam, no entanto, é que é justamente o investimento em inovação que poderá ser o fiel da balança entre as empresas que irão perecer e aquelas que seguirão sua história quando a crise passar. Diante das dúvidas que geralmente permeiam o assunto, a revista Mercado Automotivo consultou Antônio Jorge Martins, coordenador do MBA em Gestão Estratégica das Empresas da Cadeia Automotiva na Fundação Getúlio Vargas. Martins explica que o investimento em inovação tem sido visto como algo dispensável pelo senso comum em um momento de crise como a que atravessamos.

“Inovação tem sido comumente traduzida como uma atividade demandante de investimentos de alto custo e risco, em geral associada a produtos e processos intensivos em conhecimento e altamente tecnológicos”, explica o coordenador. “Trata-se de uma concepção errônea associar a atividade de inovação apenas a produtos de alta tecnologia, a investimentos custosos e de difícil execução”, completa.

De acordo com o especialista, diferentemente do que muitos na indústria imaginam, a atividade de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D) não é a única fonte de inovação, apesar de ser importantíssima nesse contexto. “Uma definição mais ampla de inovação, trazida pelo Manual de Oslo, inclui a ‘implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas’. Em outras palavras, inovar é trazer para o mercado soluções, produtos e processos que se mostrem bem sucedidos, que gerem demanda e estejam associados a resultados (econômicos ou não)”, avalia.

Dessa forma, muitas vezes uma simples reorganização de processos ou de equipe pode ser suficiente para gerar bons resultados para uma companhia. Conforme expõe Martins, é exatamente em momentos de crise e em ambientes desafiadores que inovar pode se converter em decisão estratégica para as organizações.

Trata-se de um importante diferencial, especialmente se levarmos em consideração que são poucas as empresas que decidem apostar nessas mudanças. De uma forma otimista, é possível pensar que determinado processo inovador poderia, inclusive, proporcionar à empresa a saída da crise. Ou seja, por meio de alguma mudança em sua estrutura, a companhia poderia deixar para trás as dificuldades recentes, apostando até mesmo num crescimento de receita ou corpo de trabalho.

No entanto, há diversas oca­siões em que a mudança inovadora simplesmente capacita a empresa a passar pela crise, o que já é um resultado e tanto. Passar por um período de turbulência sem grandes consequências é o que faz muitas empresas – não apenas do setor automotivo – alcançarem 50, 60, 80 anos de vida. Não é fácil, obviamente, já que para manter-se firme a companhia não depende simplesmente de seu próprio esforço. É necessário levar em consideração o desempenho de seu setor, do Brasil, dos países para os quais exporta seus produtos, etc. No entanto, com certas mudanças (no âmbito da inovação) a empresa pode promover grandes alterações em seu cotidiano ou até mesmo a longo prazo, garantindo que quando a crise passar (e esperamos que passe logo) estará à frente dos concorrentes que seguiram fazendo as coisas da mesma forma. Afinal, é como o ditado aponta: se você segue fazendo tudo da mesma forma, não deve esperar por resultados diferentes.

Indústria automotiva

Para exemplificar como o investimento em inovação pode ser determinante para que um setor se recupere de um momento negativo, Martins aborda a situação da indústria automotiva no início da década de 1990. Naquele momento, os brasileiros enfrentavam uma inflação absurda e descontrolada, e tinham que lidar com a transição entre a ditadura e a democracia direta, com as consequências que todo esse processo gerava.

Diante de todas essas dificuldades, o setor automotivo brasileiro precisava inovar. Com a abertura econômica, o País passaria a receber diversos modelos importados em uma competição que já tinha vencedor certo. Alvo de críticas até mesmo do então presidente Fernando Collor, a indústria automotiva teve de se repensar.

“A indústria automobilística brasileira, no início da década de 90, fez frente a um processo intenso de abertura econômica, financeira e tecnológica que expôs as empresas à competição internacional. Este ambiente revelou para as empresas necessidades urgentes de melhoria nos padrões de qualidade, produtividade e competitividade das corporações aqui instaladas”, explica o especialista. Martins explica que, naquela situação, foi necessário investir e apostar na inovação em produtos para que a situação melhorasse.

“O recurso à inovação – neste caso, na inovação em produtos — foi uma das respostas da indústria automobilística para a ‘sobrevivência’ neste novo contexto. Tal necessidade teve reflexos diretos no lançamento de veículos então produzidos no Brasil, que foi o triplo do número de lançamentos que ocorreram nos anos 1980, em linha com uma estratégia de lançar produtos atualizados. Ademais, a indústria automotiva promoveu uma redução significativa no tempo de lançamento dos veículos no Brasil em relação ao tempo de lançamento nos mercados externos, o que contribuiu para manter o mercado brasileiro atualizado em termos das tendências internacionais, diminuindo o grau de defasagem tecnológica. Houve também uma redução no ciclo de vida dos veículos brasileiros os quais, ou saíram de linha ou foram substituídos por versões reestilizadas mais atuais”, aponta.

De acordo com ele, o período registrou também fortes investimentos em inovação de processo entre as empresas do setor, a partir de uma reestruturação produtiva, com implementação de novas práticas organizacionais e métodos de produção mais eficientes que permitiram repensar as práticas então correntes.

“Assim como já ocorria no setor automotivo mundial, a habilidade em fornecer respostas rápidas e de caráter inovador a demandas e contingências do mercado passou a ser considerada fator estratégico entre as empresas e um diferencial no mercado. Inovações em produto, em processo, em formas organizacionais, em estratégias de marketing, em novos serviços para o consumidor, entre outras, se mostram adequadas para enfrentar os desafios então colocados pela abertura do mercado brasileiro”, completa.

É preciso, portanto, repensar a estrutura que engessa e paralisa as empresas nestes momentos de crise. O investimento em inovação pode sim ser um fator determinante para que a companhia atravesse as turbulências de maneira mais calma. Cortar parte do quadro de trabalho costuma ser a primeira alternativa pensada pelas diretorias para enxugar gastos e sobreviver aos momentos negativos. No entanto, essa opção acaba gerando custos trabalhistas imediatos, além de um péssimo ambiente de trabalho na sequência das atividades.

Quando a situação acalma, a empresa geralmente tem de contratar novos profissionais para repor as saídas, gerando novos gastos com treinamento e adaptação dos colaboradores. Ou seja, a empresa precisa gastar em dois momentos, tornando as demissões ineficazes no que diz respeito ao corte de gastos. As decisões não são simples, de fato. Ao definir a estratégia que usará para aplacar a crise, o executivo precisa pensar em longo prazo, sem decisões imediatistas.

Ainda que a estrutura da empresa seja rígida e vertical, é importante promover reuniões entre a diretoria nesse momento para que as diversas alternativas sejam levantadas e estudadas. Muitas vezes, conforme explica Martins, não se trata de priorizar outro setor, mas de repensar os negócios desenvolvidos pela companhia.

“São nestes momentos, em que as organizações são confrontadas e desafiadas, que repensar os investimentos em inovação pode vir a ser um diferencial no mercado, sem necessariamente priorizar setores ou atividades, mas sim (re)avaliando todos os negócios da organização”, complementa o especialista.

Outra vantagem no investimento em inovação, muitas vezes ignorada por executivos, é o aspecto psicológico da questão. A crise financeira não é segredo para ninguém e esse cenário gera muita instabilidade entre os próprios funcionários da empresa. Ainda que a diretoria não fale abertamente em demissões, a simples percepção de que isso pode ocorrer a qualquer momento, faz com que a instabilidade paire sobre os colaboradores, acarretando em perda de produtividade.

No entanto, se o funcionário percebe que a empresa, mesmo diante da crise, está investindo em inovação, sua própria confiança é renovada. Nessas situações, é ainda mais interessante que a empresa informe claramente como está investindo em processos, produtos e inovações para que a companhia atravesse a crise com mais tranquilidade. Assim, deixa-se claro que a empresa está se movimentando para permanecer saudável. Ainda que o funcionário não receba aumento, nem veja novidades quanto à participação nos lucros, por exemplo, ele se sentirá valorizado ao perceber que a companhia está investindo em seu ambiente de trabalho. Lembre-se: resultados diferentes requerem atitudes diferentes. Se você não quer ver sua empresa afundar, repense as estratégias que tem adotado e reflita se não é necessário inovar em procedimentos, produtos ou em ambos. 

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