Revista Mercado Automotivo

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Revista Mercado Automotivo | Edição 248

MATÉRIA DE CAPA - Edição 248: Dezembro DE 2015
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Por Redação

É chegado o fim de 2015, um ano que definitivamente ficará na memória dos brasileiros. Em sua última edição nesta temporada, a revista Mercado Automotivo busca jogar uma luz para o debate que se anuncia não apenas nos conceituados institutos econômicos e de pesquisas, mas que também é tema constante de conversas acaloradas em qualquer esquina do Brasil. Afinal, já passamos pelo pior da crise? Em 2016, estaremos melhores ou piores do que neste ano?

Não são respostas fáceis, obviamente. Afinal, como aponta o economista Raul Velloso, entrevistado nesta edição, não é possível fazer um exercício de adivinhação em relação ao que o futuro nos reserva. O que podemos fazer, no entanto, é traçar expectativas a partir dos dados que temos atualmente e também em cima de períodos semelhantes enfrentados pelo País recentemente.

Dessa forma, o que os economistas têm previsto para 2016 pode ser algo não muito agradável de se ouvir – ou de ler, nesse caso. O Brasil ainda deve patinar no ano que vem, especialmente por conta da dimensão da crise que enfrentamos hoje e também devido à relativa ineficiência das medidas adotadas pelo governo federal para minimizar as consequências de um movimento de recessão visto nos últimos semestres.

Quando a crise se anunciou de maneira mais forte no Brasil e tornou-se “palpável” para a maior parte da população em seu dia a dia – início de 2015 –, os economistas, inclusive aqueles ligados ao governo, previam um ano difícil, mas indicavam que a temporada seguinte seria mais tranquila. Ou seja, 2015 seria o ano de “arrumar as contas”, para em 2016, com a economia estabilizada, voltar a projetar crescimento.

Essa previsão foi desfeita, no entanto, por três razões, essencialmente. A primeira delas está ligada à falta de ação do governo. Imobilizado por conta de uma crise política que coloca em risco seu próprio mandato, a presidente Dilma Rousseff (PT) demorou em promover ações que pudessem, num primeiro momento, conter os efeitos da recessão e, posteriormente, fomentar a atividade industrial e o consumo no Brasil.

Assim, os brasileiros assistiram uma gastança desnecessária com uma série de ministérios e cargos públicos que poderiam ser suprimidos nesse momento de aperto nas contas. A reforma administrativa foi anunciada somente no décimo mês do ano, quando em janeiro já sabíamos que seriam necessárias medidas emergenciais. Assim, Dilma divulgou o corte de oito ministérios, 30 secretarias e 3 mil cargos de confiança, além da redução de 10% em seu próprio salário, no do vice, Michel Temer, e também nos dos ministros. O mercado não ficou satisfeito à época. Achou pouco.

O cenário internacional também não tem ajudado e é mais um motivo para impedir que a recuperação brasileira tenha início já em 2016. Nos últimos anos, o mundo tem vivenciado uma queda significativa no preço do minério de ferro e, principalmente, no petróleo. Como a balança comercial brasileira é marcada especialmente pela exportação de commodities, o País foi um dos que mais sofreram com o novo cenário internacional. A China, principal comprador de produtos brasileiros desse tipo, reduziu consideravelmente sua demanda e incapacitou o crescimento de companhias que, até então, apresentavam altas taxas de vendas e produção.

Além disso, há um terceiro fator que impactou consideravelmente a economia brasileira entre 2014 e 2015, mas que geralmente é subvalorizado pela população em geral. Trata-se do escândalo de corrupção da Petrobras, deflagrado pela Polícia Federal no ano passado.

O tema é subvalorizado porque muitos brasileiros acreditam que ele é restrito à empresa e à sua saúde financeira. No entanto, o escândalo impactou severamente o setor petrolífero como um todo, especialmente as empresas que atuavam como fornecedora da Petrobras. Tendo de apertar as contas, a companhia reduziu sua demanda. Por ser, em muitos casos, o único ou principal cliente de muitos fornecedores, a Petrobras acabou prejudicando as finanças desses entes da cadeia.

Na parte jurídica, de fato, as principais construtoras do País se viram em meio a um furacão que destrói, simultaneamente, seu caixa e sua imagem institucional. Assim, grandes companhias como Odebrecht e Camargo Corrêa reduziram suas atividades especialmente em 2015, quando a Operação Lava Jato, da Polícia Federal, passou a levar diversos acusados à cadeia.

A consequência imediata desse cenário é o aumento do desemprego. Incapacitadas, tanto as fornecedoras quanto as grandes empreiteiras são obrigadas a reduzir seu corpo de trabalho. O que começa como um movimento localizado acaba naturalmente se espalhando para diversas outras cidades, que sequer registram atividades petrolíferas. Apenas para se ter uma ideia, o Estado do Rio de Janeiro teve de conviver nesses últimos dois anos com a redução do valor pago como royalties pela exploração do petróleo. O problema é que, em alguns municípios, essa renda dos royalties representava mais da metade do orçamento anual das prefeituras.

Com o tempo, a situação se espalhou e atingiu Estados que sequer têm instalações da Petrobras. Dessa forma, a economia brasileira, que antes se orgulhava da pujança vista na maior empresa do País, passou a temer o futuro da companhia. Os analistas acreditam que a crise da Petrobras deve perdurar por mais alguns semestres, mas ao menos a companhia já dá sinais de que está colocando a casa em ordem. A custa de cortes em contratos e gastos, é verdade. Mas o movimento se faz extremamente necessário nesse momento, caso contrário, a situação se agravaria ainda mais.

No exterior, algo que poderá agravar ainda mais as economias globais é o embate entre o Estado Islâmico e países ocidentais, especialmente Estados Unidos e França. Apesar de ocorrer tão longe do Brasil, o conflito ocorre em áreas produtoras de petróleo, o que pode atingir em cheio a oferta do produto e influenciar negativamente economias dependentes da venda do insumo – como a brasileira.

Lado cheio do copo

Se a crise tirou o sono dos brasileiros em 2014 e, especialmente, em 2015, é possível (e necessário) extrair dela ensinamentos úteis tanto para o curto quanto para o longo prazos. Sentar e chorar o leite derramado não resolve, em qualquer cenário. Assim, o Brasil precisa começar 2016 perguntando-se o que é possível fazer de diferente e, principalmente, que oportunidades essa crise pode oferecer nesse momento?

Há quem diga que são nos momentos de crise que se separam “os homens dos meninos”. Trazendo essa ideia para o conceito corporativo, é possível entender que momentos de retração incorrem em readequação de processos e despesas. É em tempos como esse que as empresas podem focar em seus sistemas produtivos para entender melhor o que é possível enxugar em cada etapa. Não se trata de uma demissão em massa, mas de arrumar a casa, de modo a aumentar a produtividade dos atuais colaboradores e ampliar a produção sem ter de investir no aumento de número de máquinas, por exemplo.

Além disso, é necessário levar em consideração que o empresário brasileiro não será pego de surpresa pelo cenário negativo em 2016. Isso difere do que ocorreu neste ano, quando muitos até percebiam um agravamento da economia desde meados de 2014, mas não imaginavam que a situação fosse se deteriorar tanto.

Ou seja, os empresários brasileiros estarão mais preparados para enfrentar a crise. Isso, em tese, evitará gastos desnecessários e apostas arriscadas, que poderão resultar em prejuízos e desordens financeiras. Diante dos fatos que se impõem ao empresariado, é possível buscar parcerias no âmbito logístico para diminuir custos. Em cenários como esse que o Brasil vive, é importante destruir algumas barreiras que nos impedem de enxergar parcerias estratégicas com outros entes do setor.

O governo também parece estar mais ciente da situação em que se encontra. Nos últimos dias de novembro, a presidente Dilma Rousseff anunciou o terceiro corte orçamentário no ano. A ideia era contingenciar R$ 10,7 bilhões, mas a medida ainda depende de aprovação do Congresso, o que pode gerar novos embates com o Executivo nos próximos meses.

O outro ponto que preocupa – a crise na Petrobras – também avança. As investigações já resultaram em diversas prisões e as novas informações, inclusive, resultaram num freio ao comportamento do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), que até então representava a maior ameaça à presidente Dilma. Envolvido nas acusações, Cunha tem adotado uma postura mais discreta em relação aos pedidos de impeachment contra a petista.

O País ainda deve demorar a engrenar, é verdade. Mas 2016 é um ano particularmente importante porque pode resultar numa virada na economia do País. Qualquer avanço em relação ao que foi visto em 2015 já será válido, pois mostra que o Brasil literalmente parou de cair.

A venda de veículos novos segue em descenso. A expectativa da Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores) é de queda de 26,5% nas vendas de 2015. Para 2016, a situação também não é animadora. A Federação projeta decréscimo de 5,2% neste quesito na comparação com o ano anterior.

Neste ponto, entramos novamente em uma questão já abordada por diversos entes da cadeia automotiva: as oportunidades que poderão aparecer para a indústria de reposição. Se é verdade que os brasileiros estão comprando cada vez menos carros novos, supõe-se também que estamos cuidando mais (e melhor) dos veículos que já temos. São oportunidades que surgem e que não podem ser desperdiçadas pela indústria do setor.

É necessário cada vez mais apostar em políticas que fidelizem os clientes, além de se investir em campanhas que reforcem a necessidade de se promover uma manutenção adequada do veículo. É um trabalho de curto prazo, que trará resultados durante os próximos anos.

O ano de 2016 começará com muitas dificuldades para todo o País de maneira geral. Os setores que souberem o quanto antes como absorver os impactos desse momento e projetar estratégias para aumentar tanto a produtividade quanto as vendas pelo Brasil serão aqueles que chegarão ao final de 2016 mais capacitados para vislumbrar um cenário de crescimento em 2017. É necessário agir. Chorar pela crise só deixará o Brasil ainda mais paralisado.

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