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Revista Mercado Automotivo | Edição 260

Edição 260: Abril DE 2017
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Por redação

Foi lançado neste último mês de março o terceiro volume dos Diários da Presidência, a grandiosa obra escrita pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que compreende os bastidores e o cotidiano de seus dois mandatos no cargo mais importante do Brasil. O livro apresentado agora (Editora Companhia das Letras, R$ 80, 856 páginas) aborda o período de 1999 a 2000, registrando, entre outros pontos, o aumento da pressão enfrentada pelo governo de FHC e também as rachaduras verificadas na estrutura interna do PSDB, algo que seria determinante para as derrotas do partido nas eleições presidenciais seguintes.

Ler os livros escritos em forma de diários pelo ex- -presidente é um excelente exercício de memória para quem viveu um período que, apesar da distância temporal (cerca de 20 anos), resta fresco como se tivesse ocorrido ontem.

Um dos pontos mais interessantes da obra, que deverá ter o quarto e último volume publicado em breve, diz respeito às informações de bastidores do cotidiano de Brasília. São revelados diálogos, reuniões e estratégias que dificilmente viriam a tona por outros e-mails. Neste terceiro volume, por exemplo, FHC utiliza alguns adjetivos para se referir aos adversários políticos em uma linguagem raramente vista em seus discursos à época da Presidência.

Nesse contexto, um dos principais ataques do ex- -presidente é dirigido ao PT e seus integrantes, partido que posteriormente se tornaria uma verdadeira pedra no sapato dos tucanos nas eleições presidenciais. FHC questionava, por exemplo, o que, em sua avaliação, era uma recusa dos petistas à construção de um diálogo que pudesse estabelecer uma agenda comum de reformas entre os partidos.

“É uma insolência infantil desse pessoal do PT, que não tem condições de governar o Brasil. Qualquer convite, qualquer coisa que implique diálogo, primeiro eles têm que recusar abertamente para ficar bem com o pequeno público”, escreve FHC no livro. Ao falar sobre Luiz Inácio Lula da Silva, FHC o qualifica como um “mau--caráter popular”.

Gravações sinceras

Uma das principais vantagens da obra de Fernando Henrique Cardoso está ligada justamente à sua origem. Os quatro livros que formarão a coleção publicada pela Companhia das Letras são frutos de gravações orais feitas pelo ex-presidente na segurança de seu gabinete. Assim, diversos pontos dos livros trazem informações que revelam detalhes interessantes sobre os bastidores de Brasília e dos próprios partidos políticos.

Mais interessante ainda é quando FHC aborda nomes que seguem extremamente ativos no cenário político brasileiro. E ele o faz quando fala sobre as dificuldades enfrentadas à época por seu partido, o PSDB, para manter a sigla unida, evitando disputas internas com efeitos graves nos importantes pleitos que se apresentavam nos próximos anos. Assim, o ex-presidente descreve figuras tradicionais da política brasileira como José Serra, Aécio Neves e Mário Covas.

O terceiro volume da obra também relata as crescentes dificuldades entre PSDB e PMDB no trato diário e na negociação por cargos no governo. Para o ex-presidente, as brigas entre os partidos, tanto os que formam a oposição como os da base aliada, e entre os componentes de cada bloco, são constantes e triviais. “Luta-se pelo que parece essencial, a manutenção de um pedaço de poder (seja no governo, seja em cada corpo legislativo) e, sobretudo, em nosso caso, pela continuidade de redes de apoio, clientelísticas e corporativas. Essas desavenças formam o cotidiano da luta partidária e, neste volume, elas irrompem a cada instante”, explica FHC em seu terceiro livro da obra.

Interessante notar também a avaliação do próprio ex-presidente quanto aos seus acertos e erros no governo. Ele entende, por exemplo, que a primeira parte do terceiro livro (que compreende o ano de 1999) é extremamente marcada pelo “esforço enorme feito para superar a ‘crise do real’, que estourou em janeiro de 1999”. “Os resultados: recuperação posterior da economia e das políticas governamentais, especialmente das sociais, veem-se mais claramente nos anos 2000, em que muita coisa foi feita. Não obstante, a percepção geral é a de que no primeiro mandato consegui fazer algo, enquanto o segundo foi perdido. Os mais malévolos sabem até – ou pensam saber – o porquê disso: por causa da luta pela reeleição. Ela teria me levado a fazer acordos com o demo (de diabo, e não de povo...) e deixar de lado as tão ambicionadas (pelos grupos dominantes e esclarecidos) reformas”, explica.

A preocupação com a popularidade de seu governo também era crescente. Afinal, os índices ficavam cada vez mais negativos, ensejando uma dura disputa pela Presidência em 2002. As eleições municipais de 2000 também recebem atenção neste volume, com análises de FHC a respeito das reais chances de vitória do PSDB nas maiores cidades do país.

O que conta de forma negativa ao livro é justamente seu tamanho. São mais de 800 páginas que, em determinados momentos da leitura, correm o risco de tornar o livro maçante. O que ajuda na dinâmica da leitura é o fato de que a escrita provém de uma gravação oral de FHC, o que concede maior agilidade na própria construção do texto, evitando formalismos na linguagem. Ainda que não se trate de leitura fácil, a obra de FHC aproxima-se de sua conclusão consolidando- -se como uma referência para aqueles que desejam conhecer os bastidores da política de Brasília.

Independentemente da posição política e ideológica de cada um, a leitura ajuda muito bem a compreender alguns aspectos de nossa política que parecem não mudar, ainda que décadas fiquem para trás.

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