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Revista Mercado Automotivo | Edição 268

Edição 268: Fevereiro DE 2018
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Por Redação

Trabalhar com análises e projeções é sempre arriscado. Ainda que se pondere uma série de fatores e informações, muitas vezes o cenário acaba alterado de forma inesperada de uma hora para outra, desconsiderando tudo o que foi proposto e escrito anteriormente. No caso do setor automotivo brasileiro, qualquer projeção para os próximos anos passa por uma série de fatores, mas pode, de fato, balizar o investimento e os negócios de pequenas e médias empresas que atuam no segmento.

Os últimos números divulgados pelas principais entidades do setor automotivo comprovam que o momento, de fato, é mais positivo. O Brasil tem produzido e vendido mais, tanto automóveis quanto autopeças. No entanto, algumas ponderações são necessárias, para evitar análises otimistas demais.

Além disso, o setor automotivo inicia 2018 ainda sem um programa de incentivos voltado especificamente a ele. Ainda que o mercado aposte em sua aprovação para logo depois do carnaval, é impossível cravar quando isso acontecerá. Dessa forma, uma das perguntas que mais tem passado pela cabeça de executivos e comerciantes neste início de ano diz respeito ao futuro do setor e da economia brasileira como um todo: o que esperar dos próximos anos?

Números positivos


Quando os números referentes à produção e à venda de veículos no Brasil foram divulgados (ainda que extraoficialmente em alguns casos), a sensação geral foi de página virada. Afinal, foram quatro anos seguidos com queda nas vendas, em um cenário em que os brasileiros sequer pensavam em comprar carros novos. Em 2017, no entanto, o aumento foi de aproximadamente 9,5% em relação ao ano anterior.

Enquanto isso, a expectativa da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) era de que a venda de veículos novos no País ficasse em cerca de 7% superior a 2016. Os números foram mais positivos do que se esperava e não ficaram restritos à venda apenas.

Quando se leva em consideração a produção, os números são ainda mais favoráveis. Em relação a 2016, o ano de 2017 registrou uma produção de veículos 25% superior. Tanto os veículos leves quanto os caminhões tiveram ótimos resultados, impulsionando os índices de forma geral.

Diante desses números, por que então ser prudente? O que é preciso ponderar nestes resultados? Em primeiro lugar, a base de comparação. É fato que produção e vendas cresceram, mas os números sobre os quais ocorre a comparação são muito baixos, devido justamente às quedas verificadas em anos anteriores.

O crescimento é sempre aplaudido, mas é preciso levar em consideração que os resultados de 2013 para cá empurraram o setor automotivo a uma de suas piores crises (se não a pior). Neste cenário, qualquer aumento em vendas e produção iria gerar destaque, por menor que fosse.

Além disso, no que diz respeito à produção, é preciso comentar que boa parte desse crescimento verificado em 2017 se deve à exportação de veículos. Na comparação com o ano anterior, as exportações de veículos brasileiros subiram 46,5%. No total, cerca de 762 mil unidades foram enviadas para outros países, o que representa um recorde do setor.

Nesse caso, ainda que o aumento das exportações ajude a movimentar a economia de maneira geral, não deve gerar grandes benefícios para a reposição brasileira. O lado positivo de todo este cenário é que os resultados positivos ajudam a criar um clima de confiança até mesmo nas montadoras e concessionárias. Em um setor que foi um dos mais prejudicados pelo aumento do desemprego no Brasil nos últimos anos, um clima positivo certamente é benéfico.

Resultados de autopeças

No que diz respeito especificamente ao setor de autopeças, os números referentes ao ano de 2017 ainda não foram divulgados. Ainda assim, o que se sabe até o momento já traz uma expectativa positiva para 2018.

De acordo com relatório divulgado pelo Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores), o faturamento líquido nominal do setor de autopeças entre janeiro e outubro de 2017 foi 21,7% superior ao registrado no mesmo período de 2016. Quando se destrincha o destino das peças, verifica-se aumento em todos os nichos: vendas para montadoras (34,1%), intrassetoriais (20,2%) e reposição (8,2%).

Ainda que as autopeças não se beneficiem diretamente das exportações de veículos produzidos no Brasil, o setor também busca seus próprios acordos e negócios com outros países. Dessa forma, de janeiro a novembro de 2017, as autopeças brasileiras foram vendidas para 182 mercados, somando um valor de US$ 6,78 bilhões. O resultado é 13,3% superior ao mesmo período de 2016. Ainda que se espere pelos dados consolidados, a expectativa é positiva.

Programa automotivo

Outro entrave que gera diversas dúvidas aos integrantes do setor automotivo brasileiro é o programa que deverá substituir o Inovar-Auto, programa de incentivo à cadeia cujo vencimento ocorreu no último dia de 2017.

O setor automotivo esperava que o programa substituto (Rota 2030) entrasse em vigor já neste início de ano, o que não ocorreu. A indefinição se dá principalmente em Brasília, já que o governo está envolto em uma discussão a respeito do montante de incentivos fiscais de que abriria mão com o objetivo de desenvolver ainda mais o setor automotivo nacional.

A questão é simples: o governo (ou ao menos boa parte dele) entende que não há dinheiro disponível neste momento para a implementação/renovação de um programa de incentivos fiscais a qualquer setor. Parte de Brasília, entretanto, reconhece a importância do setor automotivo como verdadeiro motor da economia brasileira, tanto em relação às exportações quanto à criação de empregos. Manter um programa de incentivo neste momento, portanto, seria providencial para que o setor seguisse crescendo, atraindo mais investimentos e empregos para todo o território nacional.
O Ministério da Fazenda “jogou a bomba” para o presidente Michel Temer. Para o ministro da Pasta, Henrique Meirelles, a decisão será tomada no âmbito político, em uma disputa entre a indústria e a questão fiscal. Uma das bandeiras de Temer em seu governo foi justamente a austeridade econômica, em meio a um cenário de forte restrição fiscal. Dessa forma, difícil ser otimista quanto à aprovação rápida do Rota 2030.

Por outro lado, os resultados obtidos pelo antecessor do programa, o Inovar-Auto, corroboram o pensamento de que o governo deve sim manter uma política que fomente um setor fundamental à recuperação econômica brasileira. Ainda mais em ano eleitoral.

Com duração de cinco anos, o Inovar-Auto foi estabelecido pelo governo de Dilma Rousseff em 2012. Um de seus objetivos era melhorar a eficiência energética dos veículos produzidos no Brasil. Segundo dados da AEA (Associação Brasileira de Engenharia Automotiva), a melhora nesse índice foi de 15,4%, três pontos percentuais acima do estabelecido inicialmente pelo governo.

Além disso, o programa fomentou a instalação de oito fábricas em território nacional, especialmente na região Sudeste. O problema foi justamente o “timing”, neste caso. Isso porque as unidades fabris foram inauguradas justamente num período em que o mercado nacional passou a sofrer com a queda nas vendas e, consequentemente, na produção e parte do incentivo à economia, que era esperado com a inauguração das fábricas, foi por água abaixo.

Nesse sentido, no entanto, nem tudo foi negativo. Dados do Ministério da Indústria (favorável à aprovação do Rota 2030) apontam que o setor automotivo investiu R$ 21 bilhões na área de pesquisa e inovação de 2013 a 2016. O número é visto de forma positiva pelo governo.

Segundo reportagem da Folha de S. Paulo, o secretário de Desenvolvimento e Competitividade Industrial do Ministério da Indústria, Igor Calvet, chegou a afirmar recentemente que o investimento da indústria no Inovar-Auto no Brasil é equivalente ao investimento em inovação de países como Estados Unidos e Alemanha. Calvet aponta ainda que as 23 montadoras do Inovar-Auto investiram o equivalente a 2,87% de sua receita bruta em pesquisa e desenvolvimento em 2015.

Ou seja, o programa foi positivo ao Brasil e sua continuação, através do Rota 2030, pode ser justamente o incentivo necessário para fazer a economia brasileira voltar a deslanchar a partir deste ano. Contudo, o entrave está na aprovação e implementação do programa. A expectativa do mercado é de que, logo após o carnaval, o assunto seja retomado pelo governo. Preocupado com a Reforma da Previdência, no entanto, o presidente Michel Temer indica que irá avaliar o tema com calma.

Perspectivas


Conforme exposto, são muitos os indicativos de que o setor automotivo brasileiro está pavimentando sua recuperação. A solidez dessa melhora, no entanto, ainda é incerta. As vendas e a produção de veículos podem ser analisadas de forma fria, a partir simplesmente do sobe e desce mensal dos índices. Mas, é preciso considerar um fator fundamental nessa equação: o consumidor.
Algo pouco falado é justamente o interesse do brasileiro por veículos. Aumentou? Diminuiu? Difícil responder efetivamente, mas alguns fatores infelizmente têm feito o brasileiro repensar sua relação com o carro.

Após o represamento do aumento dos preços de combustíveis pela Petrobras durante anos, o consumidor brasileiro está tendo de lidar com altas constantes, tornando o ato de dirigir próximo de um luxo. Especialmente a gasolina tem enfrentado aumentos com grande frequência, deixando a situação extremamente difícil em alguns Estados em particular. O motorista fluminense, por exemplo, paga um preço altíssimo pelo litro nos postos do Estado. Até que ponto o consumidor estará disposto a utilizar seu carro nesse cenário?

A situação só não está mais crítica porque a regularização dos serviços de transporte por aplicativo fez com que o preço cobrado subisse um pouco. Isso impediu que o faturamento de empresas desse tipo seguisse crescendo, já que, diante de tarifas muito mais baratas do que as cobradas tradicionalmente pelos táxis, muitos consumidores passaram a deixar o carro na garagem para optar por outros modelos de transporte.

Tudo deve ser levado em consideração. Parte da indústria faz cálculos para saber quando o Brasil voltará a comprar carros nos mesmos níveis verificados em 2011 e 2012. Talvez nunca volte. Talvez supere estes índices. O importante, entretanto, é entender a dinâmica do consumidor brasileiro. O carro segue valorizado pelo consumidor, mas se seu uso “pesar” demais em seu bolso, fatalmente outras opções serão buscadas. É natural.

Resta ao setor automotivo (inclusive o segmento de autopeças) observar atentamente o cenário. Os números ajudam a espalhar uma mensagem otimista, mas é preciso entender que o futuro pode não ser assim tão brilhante.

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