Anuncie

Revista Mercado Automotivo | Edição 249

MATÉRIA DE CAPA - Edição 249: Fevereiro DE 2016
Publicidade

Por Redação

Não foram poucos os que iniciaram 2016 sentindo-se confusos. Voltaram ao trabalho, às suas atividades cotidianas, deram adeus ao recesso de Natal e Réveillon, mas o ano que chegou, afinal, não parecia novo. Houve quem dissesse que 2015 foi tão ruim, mas tão ruim, que parecia ainda não ter acabado nos primeiros dias de 2016. O brasileiro, que derrubou a ditadura, restabeleceu a democracia direta e superou a hiperinflação, viu-se novamente desafiado por uma economia cambaleante, um índice de desemprego crescente e um governo aparentemente sem rumo. Afinal, o que esperar de 2016?

A revista Mercado Auto­motivo consultou as principais lideranças do setor de reposição, juntamente com representantes de grandes empresas do segmento, e propôs esse exercício. Ao voltar os olhos para 2015, o que é possível levar na bagagem? E o que podemos esperar para este ano que se inicia, já que as previsões parecem somente piorar, e piorar, e piorar...

Uma das certezas expressas na maior parte dos depoimentos é que não devemos esperar por um 2016 mais ameno que a temporada anterior. Talvez, em algum (longínquo) momento, tenhamos acreditado que 2015, de fato, seria péssimo, mas que já no ano seguinte voltaríamos a trilhar o caminho do crescimento. Ledo engano. As expectativas, inclusive de organismos internacionais, é que o Brasil ainda atravesse momentos nebulosos neste e no próximo ano, para que, em 2018, na melhor das hipóteses, possamos estabilizar a situação.

Logo no início de fevereiro, a presidente Dilma Rousseff tomou uma atitude que surpreendeu os brasileiros. A executiva foi até o Congresso Nacional e participou da abertura dos trabalhos do Legislativo. Desde 1989, foi a primeira vez em que um presidente participou da cerimônia quando não estava iniciando o próprio mandato. Talvez Dilma tenha até mesmo visto a situação dessa forma: um possível (re)começo, para ela e para o País.

Dilma foi ao Congresso por sugestão do ex-ministro e conselheiro do governo Delfim Neto. Recebeu diversos cumprimentos, inclusive do principal desafeto político, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Ao iniciar seu discurso, pediu o apoio e a contribuição do Congresso para que o Brasil pudesse dar sequência ao ajuste fiscal.

“O Brasil precisa da contribuição do Congresso Nacional para dar sequência à estabilização fiscal e assegurar a retomada do crescimento. Esses objetivos não são contraditórios, pois o crescimento duradouro da economia depende da expansão do investimento público e do investimento privado, o que, por sua vez, requer equilíbrio fiscal e controle da inflação”, declarou Dilma.

Um dos pontos defendidos por Dilma que gerou mais polêmica em sua visita foi a possível volta da CPMF. A presidente defendeu o retorno do imposto, em uma situação excepcional, para reorganizar as contas do governo. Em todos os momentos nos quais tocou no assunto, viu o plenário dividir-se entre aplausos e vaias.

“Peço que considerem a excepcionalidade do momento. Levem em conta dados e não opiniões, o que torna a CPMF a melhor solução disponível para ampliar no curto prazo a receita fiscal”, disse Dilma, que defendeu também uma reforma no PIS/Cofins, no ICMS e no Super Simples, além de uma reforma da Previdência que proporcione mudanças nas regras de aposentadoria por idade e tempo de contribuição.

A presidente deixou o Congres­so e a sensação imediata foi dúbia. Se, por um lado, muitos passaram a acreditar novamente no País, apesar dos remédios amargos que foram propostos, por outro, muitos demonstraram ceticismo com as ideias expostas, as quais consideraram insuficientes.

A incerteza pode ser vista também no setor automotivo, fortemente abalado pela queda das intenções de consumo da população brasileira. Apesar de todos os problemas que parecem bater à porta, há quem acredite que o setor pode não ser o mais prejudicado na economia brasileira. Para Elias Mufarej, coordenador do GMA (Grupo de Manutenção Automotiva) e conselheiro do Sindipeças (Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores) para o mercado de reposição, a tendência é que 2016 seja parecido com 2015, por conta da conjuntura política e econômica que provoca queda em diversos setores. “O quadro é preocupante, porém o mercado de reposição deverá ser o menos afetado em função do crescimento estável e, consequentemente do envelhecimento da frota”, declarou à revista Mercado Automotivo.

“2016 deve ser um ano em que os empresários deverão ficar muito atentos, pois a progressão do mercado deverá ter uma forma mais modesta, considerando as possibilidades do poder aquisitivo da população, que tem declinado nos últimos dois anos. O segmento de veículos pesados e caminhões sofrerá mais, devido ao encolhimento da economia e à situação de grandes frotistas afetados pela redução de negócios e diminuição de frete”, avalia Mufarej.

Por sua vez, Antônio Fiola, presidente do Sindirepa (Sindicato da Indústria de Reparação de Veículos e Acessórios) de São Paulo e do Sindirepa Nacional, chama a atenção para um fator que contribui para uma avaliação mais positiva do segmento de reparação. Se 2015 foi um ano difícil, ao menos foi melhor que o anterior, quando o brasileiro se viu completamente voltado à disputa da Copa do Mundo da FIFA.

“2015 foi um ano bom para o setor de reparação de veículos, comparado com 2014 quando a Copa do Mundo acabou afetando o movimento nas oficinas, reduzindo muito o serviço naquele período. Já o ano passado foi bem melhor”, avalia Fiola, que chama a atenção para os efeitos do crescimento da frota circulante no País nos últimos anos.

“A reposição sempre reage quando há queda nas vendas de veículos novos. Se o consumidor não troca de carro precisa fazer manutenção no usado. Do total de 41,5 milhões de veículos que compõem a frota circulante brasileira, mais de 80% têm entre 4 e 15 anos de idade, justamente o período em que frequenta a oficina independente. Em 2016, mais de 3,6 milhões de veículos devem sair do período de garantia de fábrica e começar a frequentar o mercado de reposição, o que é muito positivo”, completa.

A opinião de Fiola é partilhada por Francisco de La Tôrre, presidente do Sincopeças-SP (Sindicato do Comércio Varejista de Peças e Acessórios para Veículos no Estado de São Paulo). Para ele, apesar de 2015 ter sido economicamente difícil, o varejo de autopeças obteve desempenho superior ao de outros setores da economia brasileira.

“Nosso mercado conta com gradativo aumento de potenciais clientes, uma vez que o consumidor deixa de frequentar as redes concessionárias imediatamente após o fim do período de garantia de fábrica, que dura em média dois anos”, afirma De La Tôrre, que cita estudo do próprio Sindicato para confirmar o número de veículos em circulação no Brasil, conforme apontou Fiola.

“Somado à frota de motocicletas, hoje estimada em mais de 13 milhões de unidades, esse número ultrapassa 54,5 milhões de veículos em circulação no País. [...] Se considerarmos apenas metade dos veículos fabricados em 2013, estaremos falando de uma frota de 1,8 milhão a mais de possibilidades de negócios para a reposição”, explica.

Para aproveitar as oportunidades que surgem neste momento, De La Tôrre chama a atenção para a necessidade de aprimoramento da gestão do negócio, por meio da melhoria da logística dos estoques e do preparo adequado das equipes através de treinamentos. “A crise está aí e esse é o momento de promover ajustes em nossas empresas e nos prepararmos para melhorar a rentabilidade quando sairmos dela”, finaliza.

As empresas

As empresas não ficam à parte em todo esse processo e precisam pensar rapidamente para manter a sustentabilidade do negócio e não perecer diante de tantas dificuldades. Ana Paula Cassorla, diretora da Pacaembu Autopeças, define 2016 como um ano desafiador. “Sabemos que temos oportunidades e muito trabalho para realizar, por outro lado não temos como desconsiderar o momento altamente crítico que o País está passando com relação à política, economia, confiança do consumidor, desemprego”, explica.

Para Ana Paula, a expectativa (e a torcida) é que os brasileiros possam ver melhoras tanto na economia quanto na política do País ainda neste ano, de modo a presenciar um segundo semestre “mais animador e um 2017 de crescimento”.

“O setor automotivo está sofrendo muito com a atual crise política/econômica, portanto as perspectivas para 2016 são de uma pequena evolução. Acreditamos que se trabalharmos focados em aproveitar as oportunidades, com foco na redução de custos e no resultado, poderemos ter um bom ano”, afirma, em entrevista à revista Mercado Automotivo.

Ao avaliar o ano de 2015, Ana Paula destaca que foi uma temporada de ajustes e que tanto a inflação quanto a desvalorização do real em relação ao dólar foram, ao longo do ano, tornando a situação ainda mais delicada para todos.

“A nossa percepção é a de que o mercado de reposição de veículos comerciais, que é onde atuamos, sentiu mais do que o mercado de veículos de passeio. Com a queda da atividade econômica e a consequente redução do PIB (Produto Interno Bruto), o transporte de bens e de pessoas também reduziu e com isto a manutenção automotiva foi afetada. Atualmente temos uma boa parte da frota de veículos comerciais brasileira parada, sem serviço”, finaliza.

Fábio Juliato, gerente de Marketing da divisão Automotive Aftermarket da Robert Bosch, compartilha a expectativa dos representantes dos sindicatos, que vislumbram um ano “não tão negativo” para o setor em 2016, mas faz ressalvas. “Existe a tendência de aquecimento, considerando a queda de mais de 25% nas vendas de carros novos [...] e o aumento da comercialização dos carros usados que necessitam manter a manutenção em dia, seja ela preventiva ou corretiva. Mas ainda neste cenário somos cautelosos, pois as indicações econômicas apresentam redução do poder de consumo da população e uma tendência de aumento da inadimplência”, avalia.

“Além disso, para 2016, mesmo considerando o crescimento da frota brasileira, não será possível para todos os players da cadeia de distribuição acompanharem o desenvolvimento do segmento. Acredito que haverá uma aceleração no processo de seleção, no qual somente os mais bem preparados sobreviverão a esta etapa. Quem não focar na eficiência, identificando e agindo exatamente conforme sua vocação, sob o ponto de vista do mercado, ou seja, agregando valor ao seu cliente, enfrentará sérios desafios. Medidas duras terão que ser tomadas com rapidez, a fim de que se adaptem à nova dinâmica, em que perdas e postergação de ações não podem ser toleradas. A migração de volumes e margens já tem sido intensa nos últimos anos e, agora, com a crise será ainda maior. Mas, sobretudo, acreditamos na força do mercado automotivo e vamos continuar garantindo a nossa presença através dos melhores parceiros e clientes do mercado”, completa Juliato.

Afinal, acreditar num futuro menos cinza parece ser essencial a todos no setor. Obviamente, sem deixar de lado o trabalho árduo e a constante preocupação com melhoras práticas de gestão e desenvolvimento produtivo. 2016 está apenas começando!

Design: Agência Bcicleta
Sistema: alc propaganda - criação de sites

Telefone: (011) 2639-1462 / 2639-1082
editora@photon.com.br